minhas paixões duram anos, meus relacionamentos não duram mais do que dois dias. pode-se dizer que a minha vida começou quando aquele avião pousou no paraguai. asunción. você usava todas as roupas que tinha ao mesmo tempo no corpo e flertava com a minha amiga magra numa madrugada paraguaia. eu era uma adolescente gordinha e com cabelo crespo e tingido de vermelho sangue, com péssimos hábitos alcoólicos, levando uma vida dupla. no fundo eu queria ser uma fugitiva, mas a porta da minha cela nunca esteve fechada. não era fuga, era só uma saída. eu queria ser uma mochileira, uma viajante. mas eu só tinha 1500 reais, 19 anos e um curso superior incompleto e que eu pensava sempre em largar. e uma vontade enorma de je ne sais pas. e a única língua estrangeira que eu sabia falar era o inglês, e eu estava na américa latina, sem mapa, sem passaportes, sem vistos, sem rumo mas cheia de destinos. essa é a minha história, que começa cheia de equívocos que depois se somam em acertos de alguma forma, numa matemática mágica típica da minha vida. que não faz sentido algum, mas que dá resultado.
nos encontramos num shopping, os três, sem poder comprar coisa alguma. ei, vou estar do lado da minha amiga de cabelo vermelho, voce vai encontrar rápido. voce nao sorriu, mas veio em nossa direção, e nós saímos daquele lugar, atravessando uma praça, indo tomar umas cervejas em um posto de gasolina. voce falou de comunismo e todo aquele papo intelectual argentino. e entao sorriu, seus dentes amarelos, tortos. entendi porque nao sorriu quando nos conhecemos. voce foi nos carregando pela noite, e ofereceu seu calor pra minha amiga magra. eu amarguei um frio que nunca tinha sentido na vida, 4ºC. E o abandono que eu insistia em confundir com vazio se pronunciou, eu andando passos atrás de vocês dois, como coadjuvante do meu próprio filme. ao lado do cemitério, o silêncio dos seus passos, e os mortos me fizeram companhia e eu bem sei porque: nao era eu também morta naquele momento? voce nos deixou na porta do edificio onde a mãe da minha amiga morava, e me abraçou longamente, pra minha surpresa. eu não sabia se nos veríamos de novo oura vez na vida. voce nao fez questao de manter contato comigo, e me chamou de perda total pelas minhas costas com a minha amiga, em homenagem às garrafas que eu tentei quebrar no muro do supermercado enquanto eu comia amendoins e te ameaçava em tom sério. voce não me deixou quebrar a garrafa mas ficou com medo, soube que voce não me conhecia naquele momento, e logo, nao sabia do que eu era capaz. ficou a lembrança de voces em um banco e eu deitada no concreto da praça, sempre assim, tentando me apoiar em algo enquanto o resto do meu mundo desmoronava. saí correndo em direção a avenida, eu só queria sumir. mas acabei do outro lado da rua. eu lembro de tudo. o que eu perdi foi outra coisa.
2009, 10, 11, 12.
é outono em buenos aires outra vez. eu já nao sinto tanto frio. tomo uma cerveja no terraço sozinha fingindo nao estar constrangida com minha solidão. voce me convida e eu lhe digo agora, voce ri da minha espontaneidade que já não quebra garrafas, mas continua as esvaziando. voce na porta em 15 minutos, 11 da noite. pizza, caminhada, costanera, caminhada, cerveja, caminhada, caminhada, caminhada. 3 da manhã. caminhamos sempre abraçados, faz frio embora eu saiba que ja nao sinto frio como antes. meu cabelo ainda é vermelho, só que vinho, e meu corpo e meu ser são todos mais leves. voce me faz flutuar. sentamos perto da ponte, aquela que ninguém sabe o que é, e conversamos sobre o que nem sabemos o que é, voce me abraça e a gente se beija em puerto madero. voce sentado e eu em pé, no porto. sem saber que embora eu estivesse indo, quem estava de partida era voce.
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